Atualização em Cefaléia

Mais de 90% da população vai ter cefaléia durante a vida. Na grande maioria destas pessoas qualquer analgésico vai funcionar. Só não vai funcionar para um pequeno grupo (estimados em 8%) que cronificam e são justamente estes que vão procurar um serviço médico.

A cefaléia crônica diária é definida como cefaléia persistente por mais de 15 dias no mês por mais de três meses consecutivos. A maior parte tem cefaleia primária e geralmente enxaqueca transformada.

A enxaqueca episódica geralmente está ligada a fatores genéticos. Os que cronificam geralmente apresentam mais dias perdidos na escola, no trabalho e lazer. Precisamos reconhecer os fatores de transformação para propor o melhor tratamento. Não é bom ficar com dor todos os dias. O intuito do tratamento preventivo é justamente fazer com que a cefaléia volte a ter um caráter episódico. Apenas 14% voltam no próximo ano a ter dores de cabeça menos frequentes. A grande maioria reconhece fatores de risco. Se conhecermos e tratarmos corretamente estes fatores vamos melhorar a incapacidade funcional do paciente e os sintomas associados a ela. Não raro estes sintomas são mais incapacitantes que a própria cefaléia. Temos que buscar o que está por trás da dor. São considerados fatores de risco: sexo feminino, situação socioeconômica inferior, trauma de crânio, frequência basal de cefaleia, abuso de analgésicos, abuso de cafeína, ronco habitual, sedentarismo e psicopatologia (ansiedade, depressão, etc…).

A prevenção deve ser iniciada quando o paciente apresenta uma crise a cada 1 a 2 semanas. Considera-se abuso de analgésicos quando se faz uso regular de medicamentos como ergotamina, opiáceos, triptanos combinados por mais de 10 dias/mês.

Uso total de medicações analgésicas simples mais de 15 dias por mês já é um sinal de cronificação. Todo tratamento deve visar à redução do número destas medicações.

Outro fator de risco para transformação é a obesidade. Trabalhos indicam que a cirurgia bariátrica aparentemente melhora a enxaqueca em obesos.

Ronco habitual e transtornos do sono também favorecem a cronificação. Cepap melhora muito a enxaqueca. Dor de cabeça pela manhã sempre se lembrar dos distúrbios do sono.

Apesar da grande prevalência, há muito não aparecem drogas novas para o tratamento agudo da cefaléia a não ser associações de remédios já conhecidos.

Dúvidas ainda persistem sobre até quando se deve manter um tratamento preventivo. Geralmente tratamos preventivamente de 6 a 12 meses, observando a melhora na qualidade de vida como parâmetro de sucesso do tratamento. Aí se inicia a redução gradual do medicamento.

Cefaléiafobia é o medo de ter um ataque de dor que aparece num período assintomático podendo induzir o paciente a usar analgésicos na ausência de sintomas álgicos para melhorar sua performance. O medo da dor faz com que o paciente tome analgésicos de forma a evitar um ataque de dor, como se tivesse antecipando à crise.

O medo da dor aumenta o número de crises. Fobia de dor é o mesmo que medo de avião.

Deve-se reconhecer os fatores de risco de transformação para personalizar a escolha dos esquemas terapêuticos em pacientes com enxaqueca crônica. Medidas pouco utilizadas, como orientação de higiene do sono e técnicas de terapia comportamental são muito úteis como estratégias auxiliares na profilaxia da enxaqueca crônica, assim como tratar a depressão e ansiedade quando presentes.

Deve-se ter em mente que enxaqueca não é tão benigna como se imagina. Enxaqueca com aura apresenta um risco maior de AVC. Juntos com o uso de anticoncepcionais orais conjugados e tabagismo elevam este risco ainda mais.

Devido a seu difícil tratamento, o melhor caminho é a prevenção. Quando a sua enxaqueca começar a ficar frequente, é hora de procurar um especialista para que possa ser instituída uma medicação profilática o mais breve possível, evitando assim sua cronificação.